Arquivo da Categoria ‘Prefácios’

Prefácio ao meu livro

Quarta-feira, 7 de Outubro, 2009

Mara Fernandes

Lembro-me sempre do meu irmão. De um telefonema que me fez durante as suas férias só para me dizer para escrever. “Há quanto tempo não escreves?” Perguntou-me ele da Suécia como se isso justificasse um telefonema internacional. “Mas escrever mesmo?! Há quanto tempo?!” Insistiu. Acho que nem lhe cheguei a responder. Como se as baboseiras com que vou alimentando 2 ou 3 blogs servissem para alguma coisa que não seja aumentar a frustração da resposta. Não. Escrever, escrever nunca mais tinha escrito. Mas imaginei-me a fazê-lo diversas vezes. E só uma noite destas é que se me iluminaram as ideias… é para nós que devo escrever. Escrever todas as palavras que não dissemos, nem alto só para eu ouvir, porque também não as saberia dizer. Não consigo perceber. A sério que não. Vais e vens sem aviso. Chegas numa noite, não me deixas dormir porque as ideias começam a descer em turbilhão, mas mesmo assim deixo-me vencer pela preguiça e não me levanto para escrever tudo o que me sussurras aos ouvidos. Algumas vezes alto demais. Não pode ser. E pensar que tudo isto começou só porque não me deixaste dormir uma noite destas. Porque me berraste aos ouvidos que tenho que te dizer, seja lá de que forma for, tudo o que temos para dizer ainda um ao outro. E eu é que tenho que dizer as coisas, por mim e por ti. Mas não agora. Agora vou-me deitar. A ver se as palavras me vão chegando assim devagarinho. Até já.

Prefácio

Quarta-feira, 7 de Outubro, 2009

Autor desconhecido

Na abertura do livro
Começa-se pelo prefácio
Leve o diabo a leitura
E os colhões do Padre Inácio

Epí logo existo

Quarta-feira, 7 de Outubro, 2009

Rui Simas

Eram duas. Era dia. Elas eram duas. Ele era meio. Duas e meio. A meio do dia.

Despertaram. As duas. O relógio nem apitava, apesar de serem duas. Ele dormia.

As duas rodaram sobre si, sem dar por ele. Ele roncava, babado, sonhador, sem dar por elas.

Elas espergiçaram o corpo. Ele contorcia-se.

Elas levantaram a cabeça e olharam-se. Os olhos dele tremiam.

A luz entrava pela janela aberta. As cortinas deambulavam como os panos de um teatro que se abrem para dar início a um espectáculo. Lá fora, a natureza existia.

Elas, duas, esfregaram os olhos e abriram a boca. Ergueram os braços e lançaram os cabelos para as costas. Ele dormia sem se mexer.

Elas levantaram-se.

Sem pudor, elas debruçaram-se sobre a janela. Os seus corpos nus sintonizavam-se com o sol, as flores, as árvores e o pó da terra levantada pelos carros de dois cavalos.

Alegremente, acenaram aos pássaros, aos montes, e às nuvens que passavam para cumprimentar.

Ele jazia, inerte, embutido nos lençós e embrenhado nos  sonhos.

Elas sorriam. Os seus cabelos esvoaçavam demoradamente por entre os raios de sol, desviando-se da luz como se fosse possível desviar-se dos comprimentos de onda, como se fosse possível passar por entre as gotas da chuva.

De súbito, um apito. Alguém assobiava lá fora. Como que a chamar por alguém. Alguém procurava alguém.

Elas olharam. Ninguém.

Ele sorria enquanto dormia. O sonho era bom.

Uma pedra voou para dentro do quarto. Uma pedra robusta, polida, mas sem asas. O objecto foi embater no relógio, que despertou.

Ele despertou com o relógio.

O sonho acabava e uma nova pedra entrava pela janela escancarada.

Ele ouviu um grito de dor e um som de partir. Ela gritou e o espelho partiu-se.

Ele acudiu-a. No espelho só estavam elas, espalhadas pelo chão.

À noite, fez-se luz

Quarta-feira, 7 de Outubro, 2009

Nicole Souto

Apercebendo-se da verdade que tinha descoberto, deixou-se cair no sofá, esmagado pela incredulidade da revelação. Ainda atónito, inclinou-se para a frente num movimento repentino e passou as mãos pela cara, esfregando a barba em gestos desorientados e compulsivos.

Levantou-se. Tinha de fazer alguma coisa.

Pegou no telefone mas ao marcar os primeiros números aperecebeu-se que o nervosismo lhe traía a firmeza dos dedos e a sua voz encontrava-se demasiado trémula para falar.

Pensou em escrever-lhe mas as palavras e o pensamento não lhe saíam com coerência e, além do mais, a caneta e o papel pareceram-lhe demasiado ridículos para tal situação.

Olhou então para os vidros embaciados da janela, salpicados pelas gotas de chuva que escorriam para o parapeito com a velcidade de um rio em fúria – estava uma noite dos diabos… Instintivamente, virou a cabeça em direcção ao relógio ao lado da lareira – 01:48.

Por uns momentos, fechou os olhos e concentrou-se na sua respiração ofegante, sentindo o ritmo cardíaco a acelerar a cada segundo que passava. Nessa noite não dormiria, aliás, era impossível sequer descansar contendo aquela bomba-relógio iminente dentro dele.
«Não, isto não pode ficar para amanhã. É demasiado importante para ficar amordaçado pelo silêncio da noite. Tenho que fazer alguma coisa!», pensou.

E, tão rápido quanto o seu pensamento, agarrou no casaco amarrotado que repousava ao lado do sofá e, sem mais hesitações, saíu porta fora, mergulhando profundamente na escuridão da madrugada.

Tudo o que existe

Quarta-feira, 7 de Outubro, 2009

Bruno Pinto

“A ansiedade tinha chegado com ela. Só uma porta nos separava. Não a via fazia tanto tempo; sentia-me esmagado por tudo o que estava a sentir. Tinha desejado aquele momento como não me lembro de desejar qualquer outra coisa. Abri a porta.

Estava de cabeça baixa. Olhou-me a medo, com olhos pretos hipnotizantes…diziam “eu sei que sou estranha…mas hey, tou aqui…”

Mantive-me em silêncio. Acenei-lhe com a cabeça para que entrasse. Dirigiu-se a mim de ombros encolhidos e cabeça baixa. Tanto se diz não dizendo absolutamente nada.

Quero agarrá-la. Contenho-me por 5 segundos. Estou paralisado a olhar para dentro dela e sinto uma pulsão desesperada.” Tem que ser minha”.

Estamos demasiado perto.  Temo que o perfume dela dilua a força que me resta.

É o meu lado negro que me consome. É o meu lado negro que fala com ela, que sente por ela. Estou preso e não quero fugir.

Mal a conheço e morreria por ela.

Podia viver deste amor.

Ela podia ser tudo o que existe.

Na verdade…ela é tudo o que existe.”

Pangea Ultima

Segunda-feira, 28 de Setembro, 2009

João Vicente

As excessivas preocupações sociais da actualidade foram mote introdutório para esta emblemática obra de ficção. Este autor neozelandês, em ascensão, procura desprender-se da sua realidade física e temporal cativando-nos a mergulhar num futuro improvável. A única personagem deste enredo perdeu quase toda a noção do seu passado como ser humano descrevendo-se como uma mente que vagueia por um continente que se reaproximou após milhões de anos de saudade, um único continente designado por Pangea Ultima. As suas lembranças enevoadas e caóticas descrevem-nos pandemias criadas por doenças imaginárias, mas muito em voga, que criavam motins extravagantes. Esta crítica social ridiculariza a hipocondria mundial após os primeiros espirros, que causavam perdas consideráveis de inteligência e o crescimento capilar desenfreado que dava aos humanos uma aparência quase primata. Uma nova espécie era conhecida por Homo-Pongidae. A libertação do seu espírito, agora sem preocupações fúteis, em comunhão com as restantes espécies sobreviventes, fez com que apreciasse o facto de “existir” em Pangea Ultima… Deixe-se levar nesta aventura racional e provocadora!

A bola do farmanço

Terça-feira, 22 de Setembro, 2009

João Ribeiro

A problemática da repressão, o vicio adrenalítico da expressão e o anho da meditação. tudo na mesma bola inesgotavel da qual farmamos reputação, experiência, e conhecimento, celebrando as vitórias com objectos colecionáveis como: sofás, carros, televisões e capas de revistas retocadas a photoshop. agora está espalhada e fragmentada, unida dentro de ti e mais alguém, sem fazer qualquer sentido intelectual, ardendo entre a mente e o coração, provocando o colapso do estômago pra baixo. imaginar o que está para além da tua imaginação em perpétuo movimento espiral ascendente ou descendente dependendo do narrador… não és…não sou… não és logo existes. e o sublime? é para quando? que foi? já não vamos a tempo? tentar é errado? seguir o ardor do plexus solar e seguir como uma seta… intensa e cheia de pausa. mais susceptível de golpe crítico que uma bala ou um pau. Quando descobrires o riso, far-te-á sentido… agora não. o sentimentalista épico transformou-se em pó no vento, qual estátua de Ozymandias quebrada no deserto “borra-te de medo com o meu poder”, pode não parecer mas ali havia uma civilação talvez a maior da sua era, mas depois a veio a areia. e cá me despeço por agora, esperando um livro de segundos capítulos que marcam aquele ponto especial entre o protocolo de apresentação e a especulação do desfecho.

Prefacia-mos

Segunda-feira, 21 de Setembro, 2009

Rui Simas

A proposta era tentadora. A ideia era execrável. Nada fazia sentido. Era estúpido. Era ridículo.

Aceitei sem pestanejar.

Tudo começou numa manhã sem sol. O sol brilhava e a chuva só caía sobre as pessoas cinzentas. Os telhados olhavam os pavimentos e o planeta transladava-se como habitualmente. A minha cabeça, estacionada numa almofada imaculada pela luz branca de uma candeia apagada pela escuridão, planeava levantar-se gradualmente consoante o ponteiro mais imponente do relógio digital. O sobressalto chegou por volta das dez para a mais coisa menos coisa. A porta da rua batia violentamente na mão de alguém e era por demais evidente que o botão da campainha estava sob pressão. Sobressaltados, os meus pés libertaram-se rapidamente dos lençóis e apressaram-se escadas abaixo, enquanto a minha cabeça permanecia no travesseiro fofo e doce como um artigo de pastelaria fofo e doce. Ao chegarem ao sopé do último reduto daquele estabelecimento residencial, os meus pés reclamaram a presença do resto do meu corpo, com o inominável intuito de destrancar a chave da fechadura e a corrente superlativa do seu respectivo enfiamento.

Num esforço épico, aquela a quem muitos chamam porta abriu-se e revelou um ser razoavelmente vertical, tal como eu. Para meu espanto, o ser permaneceu vertical até que uma das suas membranas se deslocou na horizontal em direcção à minha face e, por sua vez, deslocou o meu maxilar através de um gesto internacionalmente conhecido como marretada nos queixos com toda a força! O seu nome era feminino. Para quem não acredita em dejà vu, posso dizer que reconhecia aquelas formas de um passado recente. Para quem acredita em dejà vu, posso dizer que aquela figura não me era estranha. Vagamente, aquilo a que alguns aborígenes bielorrussos chamam memória trouxe-me recordações de uma cena de copos deambulantes, brilhos ofegantes e zonas erógenas litigiosas. Agora sim, tudo parecia fazer sentido, apesar de nada bater certo. Numa análise semi-analítica, a conclusão que mais parecia conclusiva era que este ser de uma beleza extremamente interdimensional, no sentido da estética de um Pablo Picasso com Parkinson ou de um Van Gogh depois de três garrafas de Moët et Chandon, era uma prestadora de serviços luxuosos que eu teria requisitado antecipadamente de uma forma a que muitas pessoas com alguma experiência no mundo da vela e desportos aquáticos poderão chamar propositada, e que me tinha esquecido de recordar que teria de recompensar financeiramente numa distância temporal de diversas dezenas de horas, talvez centenas, talvez dias.

Num esforço quase olímpico, tentei simultaneamente parar a hemorragia que emergia da minha preponderância nasal e dirigir-me para a carteira que estava em cima da mesa. Abri a mesa que estava por baixo da carteira e retirei um toro de talha dourada para entregar à respectiva indivídua. Ela, sem modos, pediu-me indelicadamente para ir concretizar uma relação amorosa com uma das mais reconhecidas cadeias internacionais de venda de produtos para casa e jardim, advertência que recusei por preferir, sem qualquer dúvida, aquela onde se montam os produtos em casa.

Ela, visivelmente insensível à incomensurável harmonia natural que emanava dos meus membros inferiores, replicou desdenhosamente, enquanto apontava com o pai de todos para uma nódoa que, ainda que ténue, existia no tecto do meu domicílio: “Prefacia isto!”

E eu prefaciei.

Bola extra

Domingo, 20 de Setembro, 2009

Pedro Gabriel

Numa altura em que Anna se encontrava no final da gravidez, era Will que se levantava mais cedo para a levar ao emprego. Numa manhã em que ambos se atrasaram Will tenta compensar o atraso no caminho da auto-estrada, mas uma distracção atira o jipe onde viajavam violentamente para fora da estrada, o que se veio a revelar fatal. Tudo é interrompido naquele instante para os três. Will acorda após um coma profundo de várias semanas. Garantiram os médicos na altura que de um milagre se tratara, face à gravidade dos ferimentos sofridos. A força do seu amor por Anna e a vontade de estar novamente junto dela foram determinantes, para um dia levantar-se de repente da cama do hospital arrancando tudo o que tinha agarrado ao corpo, correndo pelos corredores do mesmo em busca da sua amada. Naquele momento encontrar Anna, era o único pensamento que lhe corria nas veias. Depois de tomar conhecimento que nem Anna nem o bebé sobreviveram, nada mais fazia sentido na sua vida. Sem a pessoa amada, sem emprego nem dinheiro, a vida teria de recomeçar do zero. Will recebe uma bola extra para um jogo que não lhe apetece mais jogar. Morrer era agora a sua última esperança. Ou não.

A Outra Bíblia

Quinta-feira, 17 de Setembro, 2009

Gonçalo Ferreira

Primeiro volume da aclamada série “Criadores de Tudo”, esta obra é um bestseller da literatura ocidental e vai já no décimo século de edição. No princípio era o caos mas o criador disse e aconteceu a luz, depois aconteceram o dia e a noite, o firmamento, a terra (porque o mar sempre existiu), as plantas, o sol e a lua, os seres marinhos e terrestres e, finalmente o homem, tudo isto em seis dias. A criação da mulher demorou um pouco mais. Satisfeito com o seu esforço, tirou um dia de folga. Depois de dormir umas horas, o criador disse ao homem e à mulher para crescerem e se multiplicarem. Acontece que, sempre atarefado e com horários apertados por causa da expansão do universo, o criador foi construir outros mundos para longe. Fazia milhões de anos-luz por dia a construir galáxias, seres vivos, terras e mares, sóis e luas, por isso sobrava-lhe pouco tempo para tomar conta do homem e da mulher. Concedeu-lhes o livre arbítrio e eles multiplicaram-se à grande, começaram a fumar e só fizeram porcaria. De facto, multiplicaram-se tanto que povoaram tudo. Quando tirou cinco minutos para voltar à terra, o criador viu tanta gente e tanta confusão que achou por bem escolher um povo preferido. Esse povo, mesmo sendo o preferido, também pecava por tudo e por nada e, por isso, levou tareias e mais tareias durante décadas e vagueou por desertos, até chegar à terra prometida. Mesmo perante tanta estupidez junta, o criador teve paciência e enviou o Espírito Santo a casa de uma família da classe média baixa da Nazaré e nove meses depois nasceu um tipo formidável que ajudou sobremaneira três leprosos, dois coxos, sete mortos-vivos e uma prostituta. Apesar de ter morrido cheio de dores nas articulações para salvar os homens, ninguém ligou nenhuma ao tipo formidável e o mundo continuou a evoluir por maus caminhos. Um dia, o criador fartou-se de tanta treta e surgiram uns cavaleiros voadores a fazerem uma barulheira com umas trombetas e a brincarem com lança-chamas. Foi um festival pior que o do Bin Laden e ficou tudo feito em fanicos. Os bonzinhos foram para um sítio fixe, os maus lixaram-se à grande e o criador abandonou de vez a ideia do livre arbítrio. Obra-prima da literatura de intervenção divina, “A Outra Bíblia” faz-nos pensar no que seria o mundo se o criador não o tivesse feito.