Arquivo do mês de Setembro, 2009

Pangea Ultima

Segunda-feira, 28 de Setembro, 2009

João Vicente

As excessivas preocupações sociais da actualidade foram mote introdutório para esta emblemática obra de ficção. Este autor neozelandês, em ascensão, procura desprender-se da sua realidade física e temporal cativando-nos a mergulhar num futuro improvável. A única personagem deste enredo perdeu quase toda a noção do seu passado como ser humano descrevendo-se como uma mente que vagueia por um continente que se reaproximou após milhões de anos de saudade, um único continente designado por Pangea Ultima. As suas lembranças enevoadas e caóticas descrevem-nos pandemias criadas por doenças imaginárias, mas muito em voga, que criavam motins extravagantes. Esta crítica social ridiculariza a hipocondria mundial após os primeiros espirros, que causavam perdas consideráveis de inteligência e o crescimento capilar desenfreado que dava aos humanos uma aparência quase primata. Uma nova espécie era conhecida por Homo-Pongidae. A libertação do seu espírito, agora sem preocupações fúteis, em comunhão com as restantes espécies sobreviventes, fez com que apreciasse o facto de “existir” em Pangea Ultima… Deixe-se levar nesta aventura racional e provocadora!

A bola do farmanço

Terça-feira, 22 de Setembro, 2009

João Ribeiro

A problemática da repressão, o vicio adrenalítico da expressão e o anho da meditação. tudo na mesma bola inesgotavel da qual farmamos reputação, experiência, e conhecimento, celebrando as vitórias com objectos colecionáveis como: sofás, carros, televisões e capas de revistas retocadas a photoshop. agora está espalhada e fragmentada, unida dentro de ti e mais alguém, sem fazer qualquer sentido intelectual, ardendo entre a mente e o coração, provocando o colapso do estômago pra baixo. imaginar o que está para além da tua imaginação em perpétuo movimento espiral ascendente ou descendente dependendo do narrador… não és…não sou… não és logo existes. e o sublime? é para quando? que foi? já não vamos a tempo? tentar é errado? seguir o ardor do plexus solar e seguir como uma seta… intensa e cheia de pausa. mais susceptível de golpe crítico que uma bala ou um pau. Quando descobrires o riso, far-te-á sentido… agora não. o sentimentalista épico transformou-se em pó no vento, qual estátua de Ozymandias quebrada no deserto “borra-te de medo com o meu poder”, pode não parecer mas ali havia uma civilação talvez a maior da sua era, mas depois a veio a areia. e cá me despeço por agora, esperando um livro de segundos capítulos que marcam aquele ponto especial entre o protocolo de apresentação e a especulação do desfecho.

Prefacia-mos

Segunda-feira, 21 de Setembro, 2009

Rui Simas

A proposta era tentadora. A ideia era execrável. Nada fazia sentido. Era estúpido. Era ridículo.

Aceitei sem pestanejar.

Tudo começou numa manhã sem sol. O sol brilhava e a chuva só caía sobre as pessoas cinzentas. Os telhados olhavam os pavimentos e o planeta transladava-se como habitualmente. A minha cabeça, estacionada numa almofada imaculada pela luz branca de uma candeia apagada pela escuridão, planeava levantar-se gradualmente consoante o ponteiro mais imponente do relógio digital. O sobressalto chegou por volta das dez para a mais coisa menos coisa. A porta da rua batia violentamente na mão de alguém e era por demais evidente que o botão da campainha estava sob pressão. Sobressaltados, os meus pés libertaram-se rapidamente dos lençóis e apressaram-se escadas abaixo, enquanto a minha cabeça permanecia no travesseiro fofo e doce como um artigo de pastelaria fofo e doce. Ao chegarem ao sopé do último reduto daquele estabelecimento residencial, os meus pés reclamaram a presença do resto do meu corpo, com o inominável intuito de destrancar a chave da fechadura e a corrente superlativa do seu respectivo enfiamento.

Num esforço épico, aquela a quem muitos chamam porta abriu-se e revelou um ser razoavelmente vertical, tal como eu. Para meu espanto, o ser permaneceu vertical até que uma das suas membranas se deslocou na horizontal em direcção à minha face e, por sua vez, deslocou o meu maxilar através de um gesto internacionalmente conhecido como marretada nos queixos com toda a força! O seu nome era feminino. Para quem não acredita em dejà vu, posso dizer que reconhecia aquelas formas de um passado recente. Para quem acredita em dejà vu, posso dizer que aquela figura não me era estranha. Vagamente, aquilo a que alguns aborígenes bielorrussos chamam memória trouxe-me recordações de uma cena de copos deambulantes, brilhos ofegantes e zonas erógenas litigiosas. Agora sim, tudo parecia fazer sentido, apesar de nada bater certo. Numa análise semi-analítica, a conclusão que mais parecia conclusiva era que este ser de uma beleza extremamente interdimensional, no sentido da estética de um Pablo Picasso com Parkinson ou de um Van Gogh depois de três garrafas de Moët et Chandon, era uma prestadora de serviços luxuosos que eu teria requisitado antecipadamente de uma forma a que muitas pessoas com alguma experiência no mundo da vela e desportos aquáticos poderão chamar propositada, e que me tinha esquecido de recordar que teria de recompensar financeiramente numa distância temporal de diversas dezenas de horas, talvez centenas, talvez dias.

Num esforço quase olímpico, tentei simultaneamente parar a hemorragia que emergia da minha preponderância nasal e dirigir-me para a carteira que estava em cima da mesa. Abri a mesa que estava por baixo da carteira e retirei um toro de talha dourada para entregar à respectiva indivídua. Ela, sem modos, pediu-me indelicadamente para ir concretizar uma relação amorosa com uma das mais reconhecidas cadeias internacionais de venda de produtos para casa e jardim, advertência que recusei por preferir, sem qualquer dúvida, aquela onde se montam os produtos em casa.

Ela, visivelmente insensível à incomensurável harmonia natural que emanava dos meus membros inferiores, replicou desdenhosamente, enquanto apontava com o pai de todos para uma nódoa que, ainda que ténue, existia no tecto do meu domicílio: “Prefacia isto!”

E eu prefaciei.

Bola extra

Domingo, 20 de Setembro, 2009

Pedro Gabriel

Numa altura em que Anna se encontrava no final da gravidez, era Will que se levantava mais cedo para a levar ao emprego. Numa manhã em que ambos se atrasaram Will tenta compensar o atraso no caminho da auto-estrada, mas uma distracção atira o jipe onde viajavam violentamente para fora da estrada, o que se veio a revelar fatal. Tudo é interrompido naquele instante para os três. Will acorda após um coma profundo de várias semanas. Garantiram os médicos na altura que de um milagre se tratara, face à gravidade dos ferimentos sofridos. A força do seu amor por Anna e a vontade de estar novamente junto dela foram determinantes, para um dia levantar-se de repente da cama do hospital arrancando tudo o que tinha agarrado ao corpo, correndo pelos corredores do mesmo em busca da sua amada. Naquele momento encontrar Anna, era o único pensamento que lhe corria nas veias. Depois de tomar conhecimento que nem Anna nem o bebé sobreviveram, nada mais fazia sentido na sua vida. Sem a pessoa amada, sem emprego nem dinheiro, a vida teria de recomeçar do zero. Will recebe uma bola extra para um jogo que não lhe apetece mais jogar. Morrer era agora a sua última esperança. Ou não.

A Outra Bíblia

Quinta-feira, 17 de Setembro, 2009

Gonçalo Ferreira

Primeiro volume da aclamada série “Criadores de Tudo”, esta obra é um bestseller da literatura ocidental e vai já no décimo século de edição. No princípio era o caos mas o criador disse e aconteceu a luz, depois aconteceram o dia e a noite, o firmamento, a terra (porque o mar sempre existiu), as plantas, o sol e a lua, os seres marinhos e terrestres e, finalmente o homem, tudo isto em seis dias. A criação da mulher demorou um pouco mais. Satisfeito com o seu esforço, tirou um dia de folga. Depois de dormir umas horas, o criador disse ao homem e à mulher para crescerem e se multiplicarem. Acontece que, sempre atarefado e com horários apertados por causa da expansão do universo, o criador foi construir outros mundos para longe. Fazia milhões de anos-luz por dia a construir galáxias, seres vivos, terras e mares, sóis e luas, por isso sobrava-lhe pouco tempo para tomar conta do homem e da mulher. Concedeu-lhes o livre arbítrio e eles multiplicaram-se à grande, começaram a fumar e só fizeram porcaria. De facto, multiplicaram-se tanto que povoaram tudo. Quando tirou cinco minutos para voltar à terra, o criador viu tanta gente e tanta confusão que achou por bem escolher um povo preferido. Esse povo, mesmo sendo o preferido, também pecava por tudo e por nada e, por isso, levou tareias e mais tareias durante décadas e vagueou por desertos, até chegar à terra prometida. Mesmo perante tanta estupidez junta, o criador teve paciência e enviou o Espírito Santo a casa de uma família da classe média baixa da Nazaré e nove meses depois nasceu um tipo formidável que ajudou sobremaneira três leprosos, dois coxos, sete mortos-vivos e uma prostituta. Apesar de ter morrido cheio de dores nas articulações para salvar os homens, ninguém ligou nenhuma ao tipo formidável e o mundo continuou a evoluir por maus caminhos. Um dia, o criador fartou-se de tanta treta e surgiram uns cavaleiros voadores a fazerem uma barulheira com umas trombetas e a brincarem com lança-chamas. Foi um festival pior que o do Bin Laden e ficou tudo feito em fanicos. Os bonzinhos foram para um sítio fixe, os maus lixaram-se à grande e o criador abandonou de vez a ideia do livre arbítrio. Obra-prima da literatura de intervenção divina, “A Outra Bíblia” faz-nos pensar no que seria o mundo se o criador não o tivesse feito.

Prefácio a uma autobiografia de Álvaro Cunhal, em que o autor teve uma pequena trombosezinha depois da primeira frase. Ou então a um livro documentando a história do Portugal dos pequeninos. Também poderia ser um prefácio à biografia de Pacheco Pereira.

Terça-feira, 15 de Setembro, 2009

Tiago Gomes

E joao manel (tiago) viveu para sempre. Nao gosto de escrever com acentos, nunca gostei, acho que sao um acessorio deveras acessorio, tambem raramente faço uso do ponto final e uso o c com cedilha porque esta justamente ao lado do l.

Fazendo uso do c com cedilha juntamente com a tecla fn temos um tracinho – que também se encontra abaixo do c com cedilha – mais concretamente apontando para sudeste segundo os velhos ensinamentos de Timóstenes. Se o senhor Firmin-Didot levasse a sua a avante, o t francês, por vezes, também teria uma cedilha e lá seria necessária mais uma tecla; não sei onde iria caber visto que o meu teclado é um perfeito paralelogramo, digo isto porque tem os quatro ângulos rectos.

Nasci na Sé Nova, Coimbra, em 1993. eh pá o puto é albino! Tem o cabelo branquinho, branquinho! Que risco ao lado é aquele? Porque é que ele tém dois rolos, das máquinas automáticas de lavar carros, por cima das sobrancelhas?…….em 1918 visitei o Egipto pela primeira vez. Gostei, mas continuo a preferir o…… Norte d´Afrique. Je suis marrocain. Olha lá pá vamos ao Avante! É agora no dia 25 de Dezembro! Nasceu a palavra deturpar e, aqui, a palavra calúnia faria todo o sentido. Ele sabia bem que no dia 25 de Dezembro se celebrava o dia do Trabalhador…. Nunca na minha vida, jamais em tempo algum, eu desejaria que o franciú passasse o seu cabedal pelo Avante, minha nossa senhora do rosário, cruzes canhoto, nem por dá cá aquela palha eu lhe proporcionaria uma tarde de joelhos a introduzir hastes de metal, com cabeça e de pontas aguçadas, em tábuas de madeira, para no final nos depararmos com bonitos cenários, todos feitos á mão pelos resquícios do estado novo, a bater os seus tacos, bradando aos céus que as forquilhas ainda funcionam e as plainas ainda cortam fiambre e o caralho que os foda a todos. Vossas mãos, involuntárias foices de dedos, trespassam-me o coração. Filhos da Puta. Bom, pelos vistos a comunidade ainda funciona e o Pacheco ( sim, esse o da Amália) sempre tinha razão. Corta Vicente.

Você é um desgraçadinho, não a faz a mínima ideia do que está a dizer e põe em causa toda uma nação, todo um caminho cheio de veredas, toda uma luta, joelhos esfolados, calada, amordaçada, em prol de um bem comum, a verdadeira essência da condição humana. Homem livre, espaço domestico fora, fora, viva o espaço político, vamos ser livres, fora com a escravização das necessidades, fora com a politização da apolitização. Entremos na esfera dos Deuses…..

Jasus, minha nossa senhora, eu só disse que não queria estar um dia inteirinho ao Sol a pregar pregos e a cantar canções de protesto. Olha ao menos não fodi a minha irmã, pergunta ao Vilaça, e não comi a minha prima.

Disseram-me uma vez: olha lá tu és um bocado granítico. Eu! Porquê? Amando perdigotos de granito? faço toros de granito? Sou agressivo, imponente, frio?  Faço parte  de noventa por cento dos móveis de cozinha que saíram de Paços de Ferreira? Tenho o pénis grande, duro?

Sim, sim!

Sim o quê?

Sim, o último ponto que dissestes.

Ok. Podes felaciar-me o pénis?

Sim, mas se não te importas preferia chupar-te a picha primeiro.

Tabuada do Ratinho

Domingo, 13 de Setembro, 2009

 

Miguel Ramos

 

Considerado por muitos o maior auxiliar escolar de todos os tempos, a tabuada do ratinho de Alfredo Cabral tornou-se na sebenta obrigatória de qualquer aluno do primeiro ciclo. Esta edição faz-se acompanhar de um DVD multimédia onde a famosa música de tabuar em versão karaoke não foi esquecida.

 

Ordinais, cardinais, medidas de comprimento, volumes e numerações romanas. Passo a passo, a iniciação à matemática faz-se de forma metodológica, sob a forma de jogos didácticos e com a companhia do simpático ratinho sabichão. 

A carroça chegou às nove horas ao palácio branco

Sexta-feira, 11 de Setembro, 2009

João Colaço

“A carroça chegou às nove horas ao palácio branco. Será o título do próximo livro de Jorge, o escritor.”

Jorge, escritor nas horas vagas, que ao mesmo tempo não faz mais nada senão escrever, estava sentado com a sua máquina de escrever à beira-mar. As imagens ocorriam-lhe na cabeça velozmente e não as contendia.
“Passar-se-ia no século XVIII…” disse vestindo o corta-vento para se proteger da chuva. Começou a chover porque era inverno e embora estando protegido debaixo da porta da carrinha, a água vinha de lado. O vento era de norte e frio.

Será a vida de homem, que vive só no nosso mundo. Isolamento, contenção e alguma contemplação. Tem sido a vida de Jorge. Escreve para se entender e compreender os outros. Come carne e ganha dinheiro “não sabe como”. O pai vem ter com ele de vez em quando. Jorge é um homem – acima de tudo – neutro.

E isto tudo é uma comédia.

Sonhei com um sonho

Quinta-feira, 10 de Setembro, 2009

Rui Quinta

(transcrição literal dos meus apontamentos – 26/08/2009 – 2h00)

Eles são dois gajos que vivem num manicómio. Nunca se deram muito bem porque naquele sítio não havia esse hábito.
Um deles é louco e vive com os pés encaixotados num caixote. Tem tantas ideias que não as consegue apanhar, não as consegue decorar. É um candeeiro de ideias que acende e apaga e que não vai a lado nenhum. É um gajo sem memória. (lembro-me que tem cabelo liso preto e uns ténis da Hi-Tech. Lembro-me também de uma das ideias dele: “Abrir de todo o lado, um caminho para a praia.) O outro é calado em silêncio. Só fala ao ouvido e tem a tarefa de fazer com que os outros acreditem nele (no do caixote).
Um dia descobrem que não conhecem outro sítio para além daquele. Não o sabiam porque não o haviam descoberto e ninguém lhes disse porque ninguém sabia que eles não sabiam porque pelos vistos ali eram todos malucos.

Saíram para ser os melhores amigos.

No fundo, sinto que sonhei sobre um sonho em que sou estes dois gajos. Sinto que tive uma ideia sobre uma ideia que tinha tido. Uma ideia que não pode ficar parada. Tive a ideia de fazer um livro só de prefácios. “O Livro dos Prefácios”.
Hoje sou o gajo mais baixo que me fala ao ouvido e me faz arrancar a ferro este texto de entrada.

Esta ideia é mais do que os meus dedos.

Desafio-vos a escrever um prefácio para um livro de prefácios. Desafio-vos a escrever um prefácio para o livro que gostavam de ter escrito. Desafio-vos a escrever um prefácio para o livro que gostavam de ter lido. Desafio-vos a escrever um prefácio sobre uma história de dois gajos que vivem num manicómio.
Desafio-vos a escrever um prefácio para “O Livro dos Prefácios”.

A look on the wild side

Quarta-feira, 9 de Setembro, 2009

R. Soares

George, 50 anos, solteiro, coleccionador de brochuras e gravatas de seda, assíduo frequentador de peepshow’s, vive num luxuoso apartamento na Park Avenue com a mãe, Gloria Aldridge, uma viúva octagenária, antiga “socialaite” da elite americana, que apenas tem em mente beber “sweet martinis”, enquanto dança ao som de “La vida es un Carnaval” de Célia Cruz, pavoneando roupas de antigas estrelas de Hollywood compradas por fortunas em leilões.

Uma tarde, uma hora, bastará para que George e Gloria se deixem deslumbrar por dois desconhecidos, que lhes batem à porta.